)Sarau(

alma trêmula / poesia contemporânea brasileira; Laura Sanchez;

Laura Sanchez

 

 

 

 

 

sereia

Sentada na pedra do mar,

A Sereia molha a cauda

Banhando a pele na prata

Da noite escura sem estrelas.

A água gira dançante,

E distante, a luz da Lua borra,

E a Sereia reconhece a trêmula alma na água,

E sentada, silenciosa, triste, chora.

A Lua sabe a dor doente,

Pois seu espelho a reflete incompleta,

Fosca, molhada e cheia de peixes,

Então, amigável, mingua a sorrir pra Sereia.

A moça dividida,

Metade peixe, metade carne,

Metade morte, metade vida,

Sorri triste pra Lua cansada

E se joga na água dançante,

Sem poder morrer afogada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

dança

Os olhos das pessoas dançam.

Dançam uma dança solitária,

Longe de tocar outros olhos.

 

Dançam altamente,

Nos prédios em vez de albergues.

Dançam nas pernas das mulheres,

Em roupas detalhadas de chefes,

E se esquecem de dançar ali no chão,

Onde o moço estende a mão,

Com olhos que não dançam mais.

 

Os olhos das pessoas dançam.

Dançam com passos giratórios,

Para o alto, desviantes,

Quando outros olhos tropeçam no passo

E não conseguem mais dançar.

 

Assim são os olhos neste palco

De show de dança desarmoniosa.

Os olhos que estão feridos

Prosseguem imóveis,

Sem passar seu passo tardio.

 

Os que ainda dançam,

Não conhecem as cicatrizes.

Prosseguem em sua dança egoísta,

E são felizes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

miséria

Nasci de amor pedófilo,

Me criei meio na sorte,

Me chutei pro mundo cedo

E fui feliz querendo a morte.

Mas não me quis tanta desgraça.

Me enchi de sombra, mais e mais,

Nas delícias dos mundos carnais

Até a vida me chutar a carcaça.

“Vai ser mulher,

Mal projeto de plebeia!

Morte não vê choro e se fode pras tuas crenças,

Vai, remedia tuas doenças,

Sê feliz com tua miséria!”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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  ilustrações   de   rodrigo   caldas   

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LAURA SANCHEZ tem 22 anos; nasceu e mora na cidade de Ribeirão Preto. Formou-se em Letras e está começando a atuar na área. Começou a fazer histórias com 6 anos, quando aprendeu a ler. Mudava os finais dos contos de fada de que não gostava e, incentivada por sua professora, passou a escrever cada vez mais. Aos poucos, escrever tornou-se muito mais uma necessidade do que um hobbie.

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RODRIGO CALDAS nasceu em Belém do Pará, mas reside em São Paulo. Analista de sistemas, baterista da banda paulistana Bazar Pamplona e estudioso de desenhos, pinturas e arte sequencial.  Fanático por filmes de terror, action figures e histórias em quadrinhos.  Adora dançar “Cheek to Cheek” com a esposa e passear com Bruce, seu bat-cão. Atualmente está trabalhando no seu projeto autoral de história em quadrinhos. Instagram: Rodrigo Caldas. Facebook: Rodrigo Caldas.

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03/09/2017