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)Contos(

A gestação de um pai

É verdade, nunca vi teu rosto, tua pele, teus olhos. Mas o que sinto é algo que tenta se ajeitar nas minhas frestas e acaba vazando. Primeiro, pelos olhos: o líquido a escorrer rosto abaixo e salgar os lábios. Segundo, pela boca: as palavras trôpegas de um homem que nunca falou com alguém cuja carne é fruto da carne dele. Mas eu falo. Falo e sei que tu me escutas. Sei que reconheces na minha voz o veículo do afeto. Tua mãe está deitada no sofá, exibindo pra mim a parte de fora da tua casa...

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)Música(

Ode à dor-de-cotovelo, coisa nossa

Em um show que o Oduvaldo Vianna Filho escreveu, "Telecoteco, Opus n. 1", na década de 1960, para a dupla Dilermando Pinheiro e Cyro Monteiro, dois figuraças do samba brasileiro no século XX, há uma sequência de músicas chamadas de “dor-de-cotovelo”: coisa da lavra de Ismael Silva, Wilson Baptista e, claro, Lupicínio Rodrigues. Para abrir, Cyro Monteiro diz que “o brasileiro nasceu talhado para dor de cotovelo”, que ela é “patente nossa”. De fato, se olharmos para nossa lírica, ao menos desde...

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)Sarau(

meu coração farpado

Pássaro com farpas nas asas e\ buracos\ de tiro\ no meio da alma,\\ voa\\ mesmo sabendo que sangra,\ mesmo sabendo que parte, \mesmo sabendo que luta \contra a revoada,\contra a maré \e contra \o vento.\\ Voa \\ao relento de suas penas...

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)Sarau(

Sertanejo

Ê vida marvada, \ Leva a fome du sertão,\ Leva lá prás terra na estrada, \ Até chegá nus asfaltão. \\ Ê rio brabo, \ Deságua a tristeza bem pra lá \ Num deixa entrá mentira e descaso \ Que aquele insisti em falá. \\ Ê arvrinha boa di deitá Num morre nessa terra seca, \ Guenta firme qui vai miorá, \ Nóis inda vai levanta a cabeça. \\ Ê homi do sudeste, \ Pres tenção qui no agreste, \ Nus cabra da peste, Qui é bom com força, num é cafajeste. \\ Ê homi de Brasília! \ Cê tá esquecendo di nóis...

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)Sarau(

estranho seria se só o amor bastasse...

Estranho seria se desse certo\ Se não fosse difícil\ Estranho seria se fosse simples\ Se não houvesse dor\ Estranho seria se só o amor bastasse (não basta!)\ Acabou!\ Acabou, mas deixei a porta aberta\ Você levou tudo, eu sei\ É que sobrou pó de café\ E se sobrar um tempo\ Venha (me) tomar\ Assim batemos um papo\ E eu aproveito pra espancar a saudade\ até matar] Não quero estorvar, é complicado...

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)Sarau(

alma trêmula

SEREIA \\ Sentada na pedra do mar,\ A Sereia molha a cauda\ Banhando a pele na prata\ Da noite escura sem estrelas.\\ A água gira dançante,\ E distante, a luz da Lua borra,\ E a Sereia reconhece a trêmula alma na água,\ E sentada, silenciosa, triste, chora. \\ A Lua sabe a dor doente,\ Pois seu espelho a reflete incompleta,\ Fosca, molhada e cheia de peixes,\ Então, amigável, mingua a sorrir pra Sereia.\\ A moça dividida,\ Metade peixe, metade carne,\ Metade morte, metade vida,\ Sorri triste...

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Este sítio, Tertúlia, nasceu de um fanzine. De 1993 a 1997 foram apenas seis números. Fanzine é uma revista que você mesmo faz, com tesoura, cola e uma ideia na cabeça. "Xerox e revolução", disse Marcel Plasse nos anos 90. Tertúlia agora está on-line. Seja bem-vind@. Música, cinema, literatura, entrevistas, futebol (Santos Futebol Clube), um pouco de meu trabalho (work in progress) e de tudo um pouco (gastronomia, cidades etc.). Coisas para relembrar: nunca tive talento para tocar guitarra (infelizmente) e sempre gostei de botes contra a corrente.
Renato Alessandro dos Santos
realess72@gmail.com

"Olá, este é o site do fanzine Tertúlia. Nos anos 1990, fazer fanzine era mais do que ter um blog ou um site. Era esperar pelo carteiro todo dia, quando e-mails ainda não faziam parte da vida; as cartas chegavam sem parar. Mesmo quando não havia carta alguma, o carteiro passava lá em casa. 'Não vai ficar triste, menino, mas hoje não tem carta', lamentava. 'Não há problema', eu dizia.'Amanhã chega mais'. E chegava. Cartas vinham de tudo quanto é parte do Brasil e fora daqui: Espanha, Cuba, EUA. O fanzine ia cada vez mais longe... LEIA MAIS...